Fim da licença maternidade: afastar para se reencontrar

Por muito tempo, o fim da licença maternidade foi um fantasma que me assombrava nos meus piores pesadelos.

Eu não conseguia conceber como seria minha vida e a vida da Isabela e da Laura quando eu tivesse que retornar ao trabalho. Adiei esse momento o quanto pude, mas sabia que uma hora eu necessariamente teria que encará-lo de frente.

Quando esse assunto me visitava, trazia junto uma dose de negatividade. Era como se nada fosse dar certo dali em diante e minhas filhas e minha casa simplesmente não fossem funcionar na minha ausência. Era angustiante!

Mas eu tinha que amadurecer a ideia do fim da licença maternidade e não podia deixar de me preparar objetivamente para ele (reconheço que, subjetivamente, eu simplesmente não sabia lidar). Treinei a babá, estabeleci uma rotina nos mínimos detalhes, metralhei o pai com mil e uma recomendações, deixei avós e parentes de sobreaviso… era quase uma tática de guerra! Tinha plano A, plano B, plano C… plano Z! Escrito e explicado detalhadamente! rs

Ignorando solenemente minha vontade, o dia da volta ao trabalho chegou, claro…

Eu me vi forçada a vestir umas roupas que estavam esquecidas no armário, a calçar uns sapatos que pareciam nem caber mais no pé, a prestar atenção ao relógio para não me atrasar, sair de casa, fechar a porta e deixar para trás tudo aquilo que foi meu único mundo por tanto tempo…

Chorei. Chorei o caminho todo até o trabalho. Por alguns dias, confesso…

A sensação era de que eu tinha me dividido e que uma parte vital de mim mesma estava longe. Era difícil respirar. Era uma dor quase real.

Entrei naquele lugar que freqüentei por tantos anos sem nem reconhecê-lo. Era o último lugar do mundo onde eu gostaria de estar naquele momento.

Eu só pensava nas meninas e em como elas ficariam quando percebessem que eu não estaria mais à disposição delas todo o tempo que precisassem.

O retorno para casa era o momento mais esperado do dia. Ao abrir a porta de casa e encontrar Isabela e Laura, elas iam rapidamente do riso ao choro. Muito choro!

Era difícil passar o dia fora, ficar morrendo de saudade e, ao voltar para casa, ter que administrar crise de choro interminável (e dupla!). Depois de certo tempo, compreendi melhor: era como se as duas guardassem sua angústia pela separação ao longo do dia (assim como eu) e, ao me reencontrar, colocassem tudo para fora (diferente de mim, que guardava quase tudo). Talvez, se as duas falassem, diriam em alto e bom som algo como: “mamãe, onde diabos você se meteu esse tempo todo, caramba? Muitas coisas aconteceram, precisei de você e você simplesmente não estava aqui! Não faça mais isso!”.

Os dias passavam assim, em looping.

Foi apenas com o tempo que o processo transcorreu com mais leveza.

Pouco a pouco, eu me acostumei a nova rotina, as meninas entraram em um novo ritmo, a casa seguiu nos eixos e tudo funcionava e recebia novo sentido.

Foi um processo que durou alguns meses para finalmente deixar meu coração calmo e confiante.

Depois desse início difícil, ir ao trabalho se tornou um momento prazeroso e importante do meu dia. Era o MEU momento, não da mãe da Isabela e da Laura, da Priscila apenas. Um papel diferente, que exige outras habilidades e me faz respirar novos ares, novos assuntos, novas pessoas, novas conversas. Um momento que me recorda de mim para além da maternidade e traz diariamente um reencontro comigo mesma, para me mostrar que, além de mãe, sou muitas outras coisas e isso é rico e gratificante.

Voltar ao trabalho foi, no fim das contas, um reencontro comigo mesma, com meus interesses e vontades. Foi me permitir viver fora do mundo maternoinfantil, mas também retornar a ele com energias renovadas, cabeça arejada e uma imensa gratidão por ter duas lindas razões para voltar para casa todos os dias. Foi dar novo sentido a coisas pequenas, perceber que a qualidade do tempo com os bebês é bem mais importante que a quantidade e também concluir que sim, nossos filhos são capazes de ficar bem longe de nós. Por outro lado, eles esperam sempre ansiosos a nossa volta e não economizam esforços para nos ensinar, diariamente, como se demonstra um amor maior e incondicional a quem é realmente importante em nossa vida.

fim da licenca3

 

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