Calma. Respira. Isso vai passar

Assim que as meninas nasceram, fui arrebatada para um universo paralelo de sentimentos, sensações e experiências que nunca imaginaria se não tivesse experimentado na vida real e sentido na própria pele.

O nascimento prematuro das meninas, a estréia brusca na maternidade, o tempo de internação no hospital, os primeiros dias adiados em casa, as primeiras muitas coisas que vivi a partir dali… tudo era potencializado e intensificado em um escala que eu desconhecia. Não venho aqui dizer que morri instantaneamente de amores pelas crias, que vivia hipnotizada pelos seus corpinhos e olhares indefesos, que era completamente apaixonada pela maternidade em todos os seus contornos. Nada disso! Minha vida no pós-parto foi qualquer coisa menos romance. Foi luto, foi dor, foi descrença, foi desesperança, foi medo. O choro era meu companheiro. Muitas vezes, eu sabia o exato motivo das lágrimas, outras eu não tinha ideia, mas a vontade de chorar estava ali e não se continha. A dor era física, mas era também na alma.

 

Parecia que dentro de mim lutavam dois gigantes: aquele que eu fui durante toda a vida até aquele momento e o outro que surgiu quando nasceram minhas filhas e me tornei mãe. A sensação era de que esses “gigantes” eram incompatíveis, inconciliáveis, que para um existir, o outro deveria morrer e ceder seu lugar. Algo de louco e trágico, que misturado aos hormônios em polvorosa e à rotina cansativa de cuidados a recém nascido, criava uma receita bastante explosiva.baby blues

No meu íntimo, eu achava que aquilo ali, de ser mãe, não era para mim, que eu não conseguiria passar pelos desafios inteira e, pouco a pouco, eu estava me destruindo; que tudo era muito difícil e inalcançável e, por mais que me esforçasse para dar o melhor para Isabela e Laura, estava fazendo tudo errado. Não entendia como alguém poderia ser feliz naquele lugar. Eu só conseguia sentir ressentimento pelo que deixei de ser, pela vida de liberdade e independência que ficou pra trás, pela segurança e assertividade que um dia eu tive. Não conseguia sentir aquele amor lindo, completo e arrebatador, que supostamente exala o vínculo mãe-filho.

As tarefas do dia a dia das meninas eram pesadas para mim. Eu sentia pânico quando as duas acordavam juntas ou choravam juntas. Não sabia administrar tamanha necessidade que as duas tinham de mim. Me deixava tensa a ideia de sair de casa com as duas bebês, fosse para a consulta de rotina no pediatra ou para um almoço de domingo na casa da minha mãe.

Havia uma nuvem negra encobrindo momentos que deveriam ser de puro deleite e alegria.

Tive receio de falar sobre isso e não ser compreendida. Afinal, ter filhos, gêmeos, era o sonho de muita gente. Eu supostamente estava vivendo um sonho, mas inacreditavelmente não me sentia exatamente assim.

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Comecei a ler sobre “baby blues” e depressão pós parto. Situei um pouco melhor aquela minha confusão mental, hormonal, sentimental; passei a não me sentir tão isolada e sozinha nesses sentimentos ao perceber que estar assim não era um “privilégio” exclusivamente meu.

Em consulta com minha médica, o diagnóstico foi de que eu apresentava sinais de um início de depressão pós parto. Explicações médicas e científicas para tudo aquilo não acalentavam meu desconsolo por não encontrar positividade e realização na maternidade. Estava verdadeiramente triste.

Entre mamadas, trocas de fraldas, noites sem dormir, cólicas, choros, colos, o medo, a angústia, a tristeza e alguns ressentimentos vinham fazer uma visita.

O tempo, que é solução para a maioria das coisas, foi também se mostrando o meu melhor remédio. Conforme o tempo passava, os hormônios se acalmavam, o corpo se acostumava, os sentimentos se tranqüilizavam e os pensamentos se organizavam.

Não sei dizer ao certo quando voltei a me sentir bem comigo, com as meninas e com a nossa nova vida. Só sei que aquela nuvem foi aos poucos se dissipando e eu consegui abrir de novo a janela da alma para o sol. Comecei a sentir prazer na rotina com as bebês, a gostar de fato de amamentá-las, a perceber com alegria suas pequenas-grandes evoluções e conquistas, a viver nossos dias com mais serenidade e, assim, tudo ficava mais bonito e colorido.

Comecei a ver e sentir realização pessoal na maternidade.

Hoje sou outra pessoa, totalmente diferente daquela do pós parto. Aqueles sentimentos e dificuldades foram importantes na minha existência pessoal e no meu desabrochar como mãe. Percebo-me diferente, melhor, e valorizo isso.

Não posso dizer que tudo está às mil maravilhas, que a rotina com as gêmeas é moleza e que meu tempo está tão bem administrado que consigo colocar em prática todos os planos pessoais. Doce ilusão. A rotina é cansativa, algumas dúvidas e inseguranças se renovam, o tempo é curto para projetos pessoais, o desgaste emocional está ai, e o esforço em fazer o melhor para mim e para minha família também. Mas sorrir é preciso, senão a onda te leva…

Se quem me lê se identifica minimamente com qualquer dos sentimentos que descrevi, posso garantir: vai passar! Passou para mim, vai passar para você.

Respeite seu corpo, respeite seu tempo. Eles são sagrados!

Quando se sentir pronta, procure ajuda, seja um colo ou ombro amigo. Desabafe. Compartilhar a dor a torna mais leve.

A nuvem pesada vai passar e vai ficar o que vale a pena lembrar e celebrar dessa nova vida…

 

 

 

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